Coreia: A Onda Hallyu

O início da Onda Hallyu

Na década de 1990, a Coreia do Sul se encontrava mergulhada em uma grave crise econômica: muitos perderam seus empregos; lojas e empresas fecharam; alimentos básicos, como o arroz, se tornaram escassos. O Estado criou então uma campanha de doação de jóias e ouro entre os cidadãos, a fim de aumentar suas reservas e salvar a economia do país. O país ainda teve que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter empréstimos.

Foi nesse cenário de derrocada financeira que surgiu a ideia do governo de exportar o país através de mercadorias e, principalmente, o produto de sua cultura: com investimentos privados e governamentais, a Coreia do Sul passou a exportar o produto da indústria de entretenimento — principalmente a música — para outros países asiáticos como China e Japão; era o início da Onda Hallyu.

Popularidade meteórica

Essa expressão foi criada pela imprensa de Beijing, chocada com a popularidade da cultura sul-coreana na China. A invasão coreana ganhou força no mercado internacional, principalmente por conta da expansão da internet, e hoje é, mais que um produto cultural, considerado um estilo de vida.

Essa maneira de viver chegou inclusive aos EUA, onde se infiltrou numa cultura que é reconhecidamente nacionalista (até mesmo filmes ingleses precisam de legendas). A Onda Hallyu se faz presente em áreas diferentes como K-pop (música), K-beauty (mercado de cosméticos e higiene), produções audiovisuais (K-movies e K-dramas), tecnologias (Samsung e LG), no setor automobilístico (Hyundai), na moda e na gastronomia.

Da doutrinação à balança comercial

Os K-dramas (ou doramas) eram usados, na década de 1960 (dez anos depois do fim da Guerra da Coreia), como ferramenta para disseminar ideias anticomunistas e educar a população. Hoje, são produções com 16 a cem episódios, raramente com mais de uma única temporada (por isso não são chamados de “série”). Retratam desde dramas históricos até os de fantasia, atendendo assim a todos os gostos.

Antes mesmo de a Netflix começar a produzir seus dramas coreanos, as chamadas dorameiras (como são conhecidas as fãs de dramas orientais), precisavam recorrer aos fansubs e aplicativos, como Viki e o extinto DramaFever. Essas plataformas de streaming dedicadas a conteúdo oriental (os fãs do gênero ainda têm que recorrer a elas) davam acesso à produção do país — ali é possível encontrar até mesmo shows de variedades, como The Running Man e I Live Alone. O trabalho de tradução e legendagem é todo feito pelas dorameiras.

K-dramas na balança comercial

Os K-dramas ajudaram a impulsionar junto ao K-pop a economia do país. Muitas fãs começaram a querer se vestir, a se maquiar, a adotar uma rotina de beleza e a terem o corpo como as das protagonistas. Muitos começaram a visitar os lugares de gravação desses dramas, o que acabou ajudando a indústria do turismo.

Essas histórias de amor são vendidas mundo afora e, apesar de serem uma ilusão, fazem com que as fãs sonhem em ter um relacionamento igual ao do casal protagonista do k-drama. Muitas baixam o app de namoro Meeff, no qual usuários coreanos são maioria — é a maneira encontrada de as garotas encontrarem seu oppa (maneira como são tratados garotos mais velhos próximos ou irmãos).

Essa utopia do homem perfeito faz com que muitas fãs se mudem para a Coreia do Sul, e a decepção é certa. Lá, acabam vendo um mundo que é diferente do que é mostrado nos dramas: prostituição de estrangeiras, xenofobia, violência doméstica, abuso e importunação sexual em transportes públicos são comuns, o que as leva a compartilhar as experiências traumáticas que sofreram no país em grupos de Facebook. O que era visto como um sonho acaba se tornando um pesadelo para algumas estrangeiras.

Artistas completos

A cultura dos dramas e do K-pop andam de mãos dadas: muitos cantores ficam a cargo de participar da trilha sonora original ou são escalados para o elenco — quem pensa que é um risco convidar esses ídolos para atuar engana-se.

Em suas agências, eles recebem aulas de atuação, dança e canto desde muito cedo. Boa parte frequentou a School of Performing Arts Seoul (Escola de Arte Performática Seoul, ou SOPA), onde frequentam aulas de teatro e cinema; música, dança e artes em geral. Ás vezes, os cantores gostam tanto de atuar que acabam deixando a indústria musical de lado e se concentram apenas numa carreira no mercado audiovisual.

O premiado cinema coreano

Pouco se falava do cinema coreano, antes de Parasita e Train to Busan (Invasão Zumbi, em português). Graças ao diretor de Parasita e de Okja, Bong Joon Ho, o mundo passou a prestar atenção à produção cinematográfica do país. O auge do sucesso do cinema coreano veio com o desfile de estrelas coreanas recebendo seis prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (o conhecido Oscar) por conta de Parasita.

Mas se engana quem pensa que o sucesso dos filmes do leste asiático são de hoje. Muitos sucessos ocidentais são, na verdade, remakes de filmes asiáticos, como O Milagre na Cela 7, A Casa do Lago e Ironias do Amor, entre outros. O setor cinematográfico finalmente reconheceu o talento do cinema coreano, em vez de (como de hábito) transportar para um cenário ocidental as histórias contadas pelo Oriente. “Se vocês superarem a barreira dos dois centímetros que são as legendas, serão apresentados a muitos filmes incríveis!”, disse Joon Ho.

Sucesso fomentou a xenofobia

Se as dorameiras foram à loucura quando Parasita levou o Oscar de melhor filme, também ficaram furiosas com as pessoas que viram e amaram o filme. Por muito tempo, uma multidão de fãs têm reverberado o fato de as produções coreanas serem sofisticadas e dignas de prêmios em festivais internacionais. Porém, a resposta sempre foi um extenso repertório de piadas xenofóbicas, incluindo imitações grotescas da maneira de falar dos coreanos (“Xing Xong Lin”), invariavelmente com o desfecho “Não vou assistir a essa porcaria”.

No cenário atual, as plataformas de streaming (como Disney + e Netflix) se renderam a essas produções, não só transmitindo produções de terceiros como investindo em suas próprias. Squid Game, na Netflix, ficou em primeiro lugar em 94 países, alcançando 142 milhões de espectadores, se tornando o conteúdo mais visto na plataforma.

Nas primeiras semanas depois do lançamento, o drama foi assistido por 1,65 milhões de horas. Super elogiado no mundo inteiro, acabou movimentando setores do mercado como o de roupas (muitos compraram as roupas dos jogadores como fantasia, à semelhança das máscaras da também elogiada série espanhola A Casa de Papel). O drama conquistou três estatuetas no SAG Awards (Melhor Ator/ Melhor Atriz em Série Dramática, e Melhor Elenco de Dublês em Série) e um Globo de Ouro (Melhor Ator Coadjuvante).

K-Pop: um mundo de sonhos e de terror

Em 1992, nasceu o primeiro grupo de K-pop, o Seo Taiji and Boys. Em um show de talentos, o trio lançou a música I know, que representava o espírito jovem e as transformações na sociedade coreana depois do fim da ditadura, imposta pelo general do exército Park Chung Hee (1961- 1979).

A música recebeu péssimas notas dos jurados; era o primeiro rap da música coreana (o país é conhecido pelo trot, gênero mais antigo de música pop no país). Mesmo assim, a música entrou nas paradas musicais e foi um sucesso de vendas. Graças ao trio, um novo ritmo surgiu, transformando-se mais tarde em produto de exportação e seu principal bem econômico: o K-pop.

Kpop é um gênero musical que mistura melodias coreanas com batidas ocidentais. Os cantores desse estilo de música são conhecidos como idols, conhecidos por sua beleza estética e pela magreza. Boys groups, girl groups e cantores solos alcançam o topo das paradas com músicas chiclete, como Oppa Gangnam Style (PSY) ou Dynamite (BTS). As músicas ganham então o mundo a bordo de videoclipes com coreografias elaboradas e cenários coloridos e sofisticados (nada parecidos com os do pop norte-americano).

Força no turismo

Em casa, o K-pop impulsionou o turismo: segundo a Organização de Turismo da Coreia do Sul, em 2020 7,4% dos visitantes estrangeiros escolhiam o país como destino por conta do kpop e outros elementos da cultura coreana. Somente o grupo BTS injete, de forma direta e indireta, US$ 3,7 bilhões ao ano na economia do país; 1 a cada 13 turistas citou o grupo como principal motivo de visitar a Coreia do Sul. O kpop fez o número de turistas estrangeiros triplicar nos últimos 15 anos (ORTEGA, 2019).

O poder das agências

São três as maiores agências de Kpop na Coreia do Sul: SM, YG e a JYP (mais conhecidas como Big 3). Elas recrutam pessoas ou grupos por meio de reality shows, programas nos quais o público forma o grupo que vai ser lançado (Produce 101) ou por meio de audições (os jovens se inscrevem ou são recrutados por olheiros). Quando se tornam trainee, passam de seis meses a cinco anos ensaiando para sua estreia como idol: é o seu debut.

A agenda dos trainees inclui lições de canto, dança, atuação e idiomas. É um processo árduo até a estreia, o que faz com que muitos desistam no caminho. Três gerações já passaram por esse treinamento de guerra; o mundo agora está recebendo a quarta. A primeira foi marcada pelo hip hop; a segunda, pela sua forma dançante; a terceira, pela mistura do romântico com o R&B; e a quarta e atual, pela batida eletrônica.

Doce e traiçoeira ilusão

Apesar de conquistar fãs no mundo, o mundo do kpop nos bastidores pode ser considerado um pesadelo. Se o novo grupo não faz sucesso, a agência a dissolve (disband), o que acaba gerando depressão em seus integrantes; muitos acabam trocando de carreira. Muitos trainees vivem em apartamentos minúsculos com outros selecionados, e sempre com pouco dinheiro. Por conta das extensas e exaustivas horas de ensaios, muitos acabam desistindo antes mesmo de estrear no meio; os veteranos saem para preservar a saúde mental e, as vezes, fundam a sua própria agência, como por exemplo, o ZTao, ex integrante do grupo EXO que acabou voltando para seu país(China) e criou a L.TAO .

Ser idol significa passar por dietas extremas, que incluem muitas vezes uma única refeição diária; assinar contratos que proíbem namoros por um certo período de tempo; ser perseguidos pelas sasaengs; fãs totalmente obcecadas que perseguem seus ídolos e invadem sua privacidade com métodos questionáveis (existem táxis especiais para que essas fãs não percam seus ídolos de vista; uma delas instalou uma câmera no banheiro de um hotel para ver um idol no banho e outras, recolhem excrementos para vendê-los na internet).

A situação chegou a um ponto que a Lei de Delitos Menores da Coreia do Sul passou a incluir artigos para proteger os ídolos de seus fãs. Há, inclusive, um grupo de apoio para esses cantores para oferecer conselhos e ajuda-los a lidar com a fama.

Do estrelato ao suicídio

Kim Jong-hyun é o infeliz exemplo de como a indústria do K-pop pode ser massacrante: conhecido como Jonghyun, ele era cantor, compositor e produtor, fazendo sua estreia no mundo do K-pop como membro do grupo SHINee, em maio de 2008. Em 18 de dezembro de 2017, o jovem astro de 27 anos deixou queimar, em uma frigideira, um pedaço de carvão de churrasco (um método comum de suicídio na Coreia do Sul). Jonghyun morava em um elegante bairro da capital sul-coreana; foi pranteado no mundo inteiro depois de morrer, por intoxicação por monóxido de carbono, em um quarto de hospital.

O país, em choque, sentiu a dimensão da pressão que as estrelas de K-pop sofrem, o que levou o governo sul-coreano, em outubro de 2021, a estabelecer um plano para ajudar a prevenir o suícidio dos idols e as mortes por imitação por parte de seus fãs (Copycat). Entre as medidas estabelecidas estão mais consultas com psicólogos para os jovens artistas, profissionais de saúde mental em sets de filmagem, e ajuda financeira para despesas no tratamento e para subsistência, no caso dos artistas que possuem renda instável. De acordo com Agência Coreana de Conteúdo Criativo(KOCCA), o número de consultas realizadas pela Agência passou de 900(2021) para 1300(2022).

Já no caso de Copycat, o plano é que haja um monitoramento mais próximo das reportagens no que diz respeito à tais veiculações, entretanto essas ações não foram detalhadas.

Sétimo idioma no mundo

Por conta do K-pop, muitos fãs começaram aprender o idioma, conhecido como hangul (o alfabeto foi criado em 1443 pelo rei Sejong, o Grande, e é composto de 14 cosoantes e dez vogais). Segundo o Duolingo Language Report, publicado anualmente sobre as línguas que estão sendo mais estudadas, o coreano foi o segundo idioma que mais cresceu no Brasil e em outros países — ele aparece em sétimo lugar no ranking dos idiomas mais estudados no mundo. As principais motivações dos alunos são cultura; se comunicar com os seus ídolos; entender o que eles estão falando; fazer novas amizades; e viagem.

Com a chegada da Onda Hallyu ao Brasil, cursos de coreano pipocaram país afora (tanto os presenciais como os online, especialmente formatados para o aluno brasileiro). Mesmo assim, eles são ainda poucos. No Rio de Janeiro, a Yázigi é a única escola de idiomas que tem curso de coreano como opção. Uma opção para aqueles sem orçamento para bancar um curso do idioma, algumas escolas públicas oferecem aulas gratuitas: é o caso dos colégios estaduais Visconde de Cairu, no Méier; Paulo de Frontin, no Rio Comprido; e Olga Benário, em Bonsucesso — neste último, as aulas estão a cargo de uma professora nativa.

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