O que é transição capilar?

transição capilar

Transição capilar é o processo pelo qual homens e mulheres deixam de alisar quimicamente os cabelos, para que eles voltem à sua textura original, seja ele crespo, ondulado ou cacheado. A partir do momento em que você decide parar de usar química para seu cabelo voltar ao que era naturalmente, a transição, na prática, já começou.

Desafios da transição capilar

  1. Aprender a lidar com um cabelo de texturas diferentes: Enquanto na raiz a textura natural do cabelo vai começar a aparecer, no restante dos fios ele ainda estará alisado. Caso não opte pelo corte big chop (grande corte, em português), é preciso ter paciência até que o cabelo natural cresça até atingir o comprimento ideal para um corte que remova a parte alisada.
  2. Produtos adequados: Durante a transição, é preciso usar produtos que cuidem, da melhor forma, da nova textura capilar.
  3. Autoestima: Muitas vezes, ao optar pelo big chop, a autoestima da mulher preta fica comprometida; para muitas mulheres, o cabelo comprido é sinônimo de ser feminina. A transição também pode ser um agente causador de baixa autoestima, o que faz muitas mulheres lançarem mão do lace ou mesmo de perucas. como Camilla de Lucas e Bruna Gonçalves (ex-participantes do BBB). A diferença entre elas? O  tipo de touca, não precisar cola de fixação e a não imitação do couro cabeludo (lace). Por isso, procure apoio nas pessoas que passaram pelo mesmo processo. 

Como passar pela transição capilar?

  1. Adeus às químicas: Técnicas como alisamento definitivo (progressiva e relexamento) e produtos para com a mesma finalidade (como o henê) devem ser abandonados.
  2. Tome cuidado com o calor: Evite usar secador de cabelo, babyliss e chapinha com frequência. Se for preciso, use antes protetores térmicos que evitarão que o calor agrida o cabelo na transição capilar: tanto as mechas impregnadas com química como os fios que estão nascendo.
  3. Hidratação no dia a dia: Durante essa fase, adote a rotina de hidratar o cabelo para que, assim, os novos fios nasçam fortes e saudáveis. Para isso, siga um cronograma capilar e use produtos adequados para o seu tipo de cabelo.

Conhecendo o seu cabelo

Ondulados

É um estilo bastante versátil, ou seja, ele transita entre o liso, o cacheado e da forma como é finalizado. Pequenas curvas os diferenciam dos cabelos lisos, mas não podem ser classificados como cabelos cacheados por terem fios mais abertos. São classificados em 2A,2B e 2C:

2A: Apesar de parecido com o cabelo liso, mostra pequena ondulação que não é muito marcante. Por ter características de um cabelo liso, ele é o que apresenta menos volume e tende ser muito oleoso dos três tipos classificados como tipo 2.

2B: Um pouco mais curvo; por apresentar um pouco mais de volume, esse tipo pode ter um pouco mais de frizz. A ondulação fica mais intensa ao decorrer do comprimento.

2C: A ondulação é bastante definida e se aproxima mais dos cabelos cacheados. Dependendo de como é finalizado, ele pode ser correlacionado a um cabelo tipo 3A. É o que apresenta mais volume e frizz entre os outros, além de ser ressecado na raiz e oleoso no couro cabeludo.

cabelo ondulado

Cacheados

Também conhecidos como cabelos encaracolados, são classificados como 3A, 3B e 3C. O fio tem formato caracol; por conta dos cachos, os fios tendem ser mais ressecados, porque o óleo do couro cabeludo não consegue descer até as pontas.

3A: Cachos mais abertos; aproxima-se, a depender do comprimento dos fios, a um cabelo ondulado tipo 2C. Apresenta maior volume e definição, comparado aos cabelos ondulados. É o mais oleoso dos três.

3B: É mais ondulado na raiz e possui cachos mais definidos nas pontas do que no restante do cabelo. Tem mais volume e frizz, e demanda cuidados especiais, tais como a hidratação, por ser menos oleoso.

3C: Os cachos são mais fechados e, por isso, os fios parecerem menores do que são. As ondas são formadas logo a partir da raiz. Apesar de o 3C ser bastante ressecado, ele apresenta muito volume e definição, comparado aos outros tipos.

Crespo

Na curvatura, possuem classificação 4A, 4B e 4C. Entre os três tipos, são mais volumosos e seus cachos, mais fechados; consequentemente, tendem ser ressecados e ter mais frizz.

4A: Aproxima-se do cabelo 3C (cacheado). Seus cachos, por serem mais fechados, precisam de mais atenção na hora de hidratar o cabelo.

4B: Tanto os tipos 4B como o 4C tendem a apresentar fios em ziguezague, com cachos mais apertados; por isso, tendem a perder a forma de caracol que os caracterizam. Por conta disso, tendem a ser mais ressecado e volumoso, o que acaba tornando os fios mais frágeis.

4C: Seus fios em ziguezague têm os caracóis mais fechados de todos os tipos. Ele não apresenta definição mas, entre os três, é o mais volumoso. São cabelos bastante ressecados – problema que pode ser resolvidos com produtos que possuem bastante óleo na sua fórmula. Seus fios são os que mais encolhem.

A ditadura do liso

A sociedade, nos últimos séculos, determinou o padrão estético para os cabelos das mulheres, basicamente eurocêntrico: a ditadura do cabelo liso atinge principalmente as mulheres pretas e pardas. “Comecei a alisar o cabelo com 14 anos, porque eu queria parecer com as outras meninas da escola: todas as meninas legais tinham cabelo liso, super longo, era esse o padrão na escola”, conta a estudante Isabela Santiago, 23 anos, que alisou os cabelos dos 14 aos 17 anos.

É na escola, aliás, em que acontece o primeiro choque de realidade de toda garota cujo cabelo foge ao padrão. É o que conta a também estudante Laís Lara, 23 anos: “Alisei meu cabelo por cerca de um ano. Estudava em uma escola da zona sul do Rio em que a maior parte dos alunos eram brancos; não tinha ninguém para me espelhar, para me motivar a continuar com o meu cabelo crespo: eu só me relacionava com pessoas que tinham cabelo liso. e elas sempre falavam do meu cabelo.

Segundo Laís, “isso me levou a querer muito ser igual às pessoas de quem eu era amiga, sem perceber por um tempo que elas faziam eu acreditar que o meu cabelo era feio. E é um processo muito difícil, porque quando eu alisei o meu cabelo, ele não ficou igual aos das minhas amigas, obviamente. Porque é um  cabelo que não tem a mesma forma, não tem o mesmo formato – não é o mesmo fio. Mas isso eu só fui perceber isso mais tarde”. 

A descoberta das especificidades dos cabelos cacheados e crespos vem depois de um processo doloroso, que na maioria das vezes envolve baixa autoestima e a quase destruição do próprio cabelo em nome de uma suposta “aceitação” pela sociedade. É isso o que viveu a estudante de 22 anos Joana Lana

Joana passou cinco anos com os cabelos alisados…
… até assumir seus cabelos naturais

“Até os seis anos, eu não tinha nenhum problema com o meu cabelo. Eu era a bonequinha da família e das tias da creche; todos amavam fazer penteados em mim. As coisas começaram a mudar quando fui para a escola: eu ainda não tinha nenhum sentimento ruim em relação ao meu cabelo, mas eu nunca era a mais bonita e eu não entendi muito bem por quê. Aos 11 anos, mudei de escola de novo, e esta valorizava ao extremo valores brancos estéticos, como magreza e cabelo liso. Nela, jamais me senti bem”.

Foi nessa época, lembra ela, em que começou a sentir a pressão social para se “enquadrar”: “Minhas amigas todas fizeram alisamento na época, e queria muito também, mas minha mãe não deixava. De viagem marcada para a Disney, veio a certeza de que não conseguiria cuidar do meu cabelo sozinha lá. Minha mãe, mesmo contrária à ideia, cedeu, e eu alisei o cabelo pela primeira vez. Na primeira cabeleireira que fomos, ela se negou a fazer, disse que não ia dar certo e que meu cabelo podia cair – eu queria muito ter escutado o que ela disse…”

Desastre anunciado

Uma segunda cabeleireira alisou o cabelo de Joana – que se descuidou e lavou-o no dia da viagem arruinando o alisamento. “Chorei muito. Fui pra Disney muito triste, quase não consegui aproveitar porque estava me achando horrorosa.” Assim que voltou, ela fez outra progressiva. “Fui muito feliz, tive meu primeiro namorado, as pessoas se sentiam atraídas por mim, por aqueles dois meses eu estava exultante.” Mas foi aí que o desastre aconteceu.

“No terceiro mês, tudo começou a ruir: meu cabelo já estava muito ralo e dava para perceber que ele estava caindo muito. Meu namorado terminou comigo, e nos meses seguintes todo o meu cabelo caiu, tudo – só sobrou um fiapo na parte da frente… Eu estava horrível, eu me sentia horrível. Todo dia eu quis me matar.”

Um cabelo arruinado pela busca de um padrão também marcou a adolescência de Laís. “Quando eu alisei o meu cabelo pela primeira vez, ele ficou lindo; não ouvia mais os comentários de que eu estava atrapalhando a visão do quadro, que era “impossível” eu fazer qualquer penteado – eu não era mais a pessoa que tinha o cabelo de bombril. Se por um lado isso era bom, por outro eu simplesmente não conseguia manter o meu cabelo assim por muito tempo, porque ele começou a cair, na verdade, desde a primeira chapinha que eu fiz no salão, com química.”

Ela se lembra do horror de, “após um ano fazendo chapinha semanalmente para manter meu cabelo liso, comecei a ver espaços carecas na minha cabeça. Parei com a chapinha,  e  eu vi que o meu cabelo estava muito, muito feio.”

A descoberta da beleza natural

Mesmo quando o desastre se consumou, muitas insistem. Foi o que a estudante Joana fez, mesmo com o cabelo arruinado, assim que foi possível: outro alisamento , que “daquela vez, prometia apenas abrir a curvatura do cacho – mas que, na realidade alisava o cabelo.” Mas foi quando eu resolvi que ia deixar meu cabelo vir ao natural. Eu já não me identificava mais com o liso, eu me olhava no espelho e me sentia uma farsa”.

A mudança de escola foi o diferencial, tanto para ela quanto para Laís. As duas encontraram colegas que tinham assumido seus cachos e viviam em paz com eles. “Tomei coragem, deixei crescer um pouco da raiz e cortei tudo. Foi a melhor coisa que eu fiz”, lembra Joana.

Laís acredita que “esse processo da transição também tem muito a ver com o seu convívio social. Eu estudava em um colégio que me fez uma pessoa com baixa autoestima. Acho que essa é a principal coisa da transição: quando você passa de um lugar de onde não se sente acolhido para outro onde encontra pessoas em quem se espelhar. Foi a melhor coisa eu ter mudado de escola”.

O acolhimento que sentiu fez toda a diferença: “Tinha outros meninos negros na minha sala, que usavam cabelo black; eu via meninas mais velhas que também tinham cabelo cacheado e se importavam com isso. Acho que, quando você vê uma referência, isso te deixa mais forte, te deixa com mais vontade de fazer. E depois que eu passei pela transição tenho outra relação com meu cabelo: sinto muito apreço por ele, não o alisaria de novo por nada. Acho que o importante mesmo é você ter o cabelo natural, e conseguir amá-lo do jeito que ele é.”

1 ano usando chapinha foi suficiente…
para Laís assumir seus cabelos crespos

Aprender a amar seu próprio cabelo é um processo que começa na infância, e a soma das experiências pode levar ao empoderamento. Isabela se lembra que fios ressecados e sem forma eram “o meu maior pesadelo; o que eu mais odiava era o volume do meu cabelo. Foi aí que eu comecei a alisar o  cabelo”.

A estudante caiu no conto da “escova sem formol” que, mesmo não sendo progressiva, ainda assim agride o cabelo: “Ainda é química, né? É engraçado, porque me elogiavam muito quando eu retocava a escova, mas eu não sentia que o elogio era para mim. Porque as pessoas diziam que o meu cabelo estava muito bonito, mas eu sabia que o que as pessoas achavam bonito era química, não o meu cabelo.”

Depois de três anos usando chapinha, Isabela…
…assumiu o seu cabelo natural

Cabelos tratados com racismo

De acordo com a socióloga Anita Pequeno, autora do artigo História Sociopolítica do Cabelo Crespo, “as mulheres negras conhecem a violência do racismo desde muito cedo, principalmente através da maneira como a sociedade taxa o cabelo crespo como ‘ruim’. Acredito que esse é um dos discursos racistas mais abertamente postulados”.

Clarissa Lima, 38 anos, professora, doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora de livros no campo da educação para as relações etnicorraciais e ativista do movimento negro, tem uma vida de racismo impregnada em cada um dos seus cachos. Leia abaixo a história dela.

“Balançar os cabelos como uma paquita”

“A minha experiência com a transição capilar vem desde a infância. Desde muito pequena, minha mãe buscava, usando produtos naturais, a melhor maleabilidade para meus cabelos crespos. No entanto,  diante das pressões midiáticas em relação à estética, sobretudo nos anos 1980/1990 – a década da geração Xuxa/Paquita – cedi à pressão e, por volta dos meus 7 anos de idade, iniciei o processo de química capilar. 

Naquele primeiro momento, o objetivo era alisar e escovar os cabelos na esperança de que eu pudesse balançá-los como as Paquitas e como as dançarinas de lambada, pois eram essas as principais referências da TV. Na época, as poucas atrizes negras faziam papéis ora subalternizados (com shorts curtos, mascando chicletes ou usando uniformes domésticos), ora eram representações do período escravista. Eram personagens nos quais eu não gostava de me espelhar. 

Cabelos crespos na TV eram observados em quadros de humor, ridicularizados em personagens como “nêga maluca”, com os quais eu não queria, nem de longe, me ver representada.  Assim, a realidade que me era apresentada era que quanto mais alisado o cabelo, mais bela era a menina/mulher.

Com o Movimento Negro, (re)aprendi sobre as minhas identidades negras (cabelo, pele, nariz, dentes); o processo de reconstrução de autoestima foi longo. Saí do alisamento e passei para o relaxamento, onde os cabelos tinham uma aparência mais natural. 

Mas ainda assim não era o suficiente. E é neste processo de sair do relaxamento, com auxílio das tranças, para (re)conhecer o meu cabelo natural, que me encontro atualmente.  Sim, foi aos 38 anos de idade que toquei no meu cabelo natural, sem química, pela primeira vez em mais de 30 anos. Tocar no meu cabelo natural me provoca um misto de sensações,  desperta uma contra narrativa interna na qual o sistema grita e eu revido com a aceitação. Enquanto o sistema grita: ‘É feio, é duro,  é descuidado, é bombril!’, eu revido com: ‘É meu, é meu corpo, minha negritude, minhas ancestrais, é lindo!'”

Clarissa levou mais de 30 anos…
…para tocar os seus cabelos naturais

Vivendo a beleza dos cabelos naturais

Linhas de cosméticos especificamente criadas para mulheres negras começaram a surgir no início dos anos 2000. Uma delas foi a Lola Cosmetics – a primeira marca brasileira a criar produtos premium para mulheres crespas e cacheadas, como os das linhas para reconstrução, hidratação e nutrição “Transição”, “Meu cacho, minha vida”, “Eu sei o que você fez na química passada”, “BE(M)DITA” , entre outras. A marca também conta com a linha infantil “Lola Kids” , que oferece produtos para crianças dos três aos 12 anos, como o “Meu Camomilinha” e “Meu Cachinho”

Além disso, a Lola quer ajudar mulheres como Isabela, Joana, Laís e Clarissa no processo de se descobrir bonita e dentro de seus próprios padrões de beleza e a encarar a transição capilar como uma etapa de descobertas. Para isso, criamos um e-book totalmente gratuito com dicas de profissionais da área e que sabem tudo sobre transição.

Ao fazer a inscrição para receber o nosso e-book, você ganha 20% de desconto na linha “transição”. E não só isso: apoio é fundamental nesse processo de descoberta, e por isso criamos um grupo de mulheres com quem você pode dividir experiências, relatos, dores e alegrias. Você vai encontrar o contato delas e mais informações sobre o grupo no fim do e-book.

ATENÇÃO! Este texto tem finalidade acadêmica; a parceria com a Lola Cosmetics é fictícia e não representa a realidade.

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